Dinheiro chegou, conformidade não — Os espaços em branco de conformidade na aceitação de stablecoins e escolhas dos comerciantes

Escrita por: Will 阿望

Receber pagamentos em USDT, em dez segundos, com cancelamento de pagamento desaparecendo — essa é a experiência real de muitos comerciantes de entretenimento digital ao usar stablecoins para recebimentos pela primeira vez. Mas o dinheiro chegar é apenas a parte mais simples.

Nos sistemas tradicionais de processamento de pagamentos, o banco emissor, o adquirente e a organização de cartões dividem todas as tarefas invisíveis: verificação de identidade, triagem de risco, relatórios de transações suspeitas, resolução de disputas. As stablecoins eliminam cada uma dessas camadas intermediárias. No momento em que a transferência na blockchain é concluída, essas quatro tarefas não são realizadas por nenhuma das partes.

Este artigo discute esse vazio: quem deve preenchê-lo, como preencher, até que ponto é considerado compatível com as normas. Para plataformas que estão construindo serviços de processamento de stablecoins e comerciantes avaliando se devem ou não aderir, isso não é uma questão de regulação — é um risco de conformidade já existente na sua arquitetura de negócios.

  1. Receber pagamentos e processar pagamentos não são a mesma coisa

No final de 2023, uma loja de entretenimento digital do Sudeste Asiático teve sua conta Stripe permanentemente suspensa por taxa de rejeição acima do limite. Em três semanas, eles integraram uma plataforma de recebimento de stablecoins registrada em São Vicente, e os USDT começaram a chegar, eliminando as rejeições. Mas, dois anos depois, uma auditoria de conformidade descobriu: durante esses 24 meses, nenhuma transação passou por triagem de risco na blockchain.

O dinheiro chegou. A conformidade, não.

Esse é o verdadeiro problema que o processamento de stablecoins precisa resolver.

As stablecoins são naturalmente “recebimento”, não “processamento” — o dinheiro vai da carteira de A para a carteira de B, na blockchain, e só. Usamos o termo “processamento” porque ele aponta para uma questão mais precisa: o comerciante não precisa apenas receber o dinheiro, mas sim de um sistema de serviços que garanta a legalidade, segurança e verificabilidade dessa transação.

Nos sistemas tradicionais de cartões, esse sistema é dividido entre três partes: o banco emissor verifica a identidade do titular do cartão, o adquirente aceita cada transação e assume risco, e a organização de cartões realiza a liquidação intermediária. Quando um comerciante passa o cartão, uma responsabilidade é atribuída a um mecanismo que funciona silenciosamente — KYC é feito, risco é assumido, disputas são resolvidas, relatórios são enviados. Tudo isso é invisível ao comerciante e ele não precisa se preocupar.

As stablecoins eliminam todas essas camadas intermediárias. O dinheiro chega, mas:

  • Nenhuma parte realizou verificação de identidade do pagador (KYC)
  • Nenhuma parte fez triagem de risco na transação (KYT)
  • Nenhuma parte reportou fluxo suspeito às autoridades (STR)
  • Nenhuma parte pode resolver disputas por pagamento errado ou controvérsias de consumo (Dispute)

A ausência dessas quatro funções é a maior lacuna entre o recebimento com stablecoins e o verdadeiro “processamento” de pagamentos. Quem deve preenchê-la, como preencher, até que ponto é considerado conforme as normas — esse é o foco deste artigo.

Tecnicamente, o processamento de stablecoins é uma transferência ponto a ponto. Comercialmente, deve cobrir todas as funções que o sistema tradicional de adquirentes realiza. O valor do processamento com stablecoins não está na blockchain, mas fora dela.

  1. Demanda impulsiona: por que os comerciantes chegaram a esse ponto

O que leva os comerciantes a adotarem pagamentos com stablecoins nunca foi entusiasmo por novas tecnologias. Os principais motivos que os motivam a aderir são apenas três.

Motivo 1: Eliminar rejeições

Rejeição não é um risco adicional do pagamento online, mas uma característica estrutural. Como todas as transações online não envolvem cartão físico, assinatura ou verificação presencial, o ônus de provar a disputa recai totalmente sobre o comerciante.

Dados ilustram a escala do problema. Segundo Chargeflow, até 2025, as perdas globais por rejeição de e-commerce chegarão a US$ 33,8 bilhões, e devem subir para US$ 41,7 bilhões em 2028. O índice de rejeição em setores como viagens, hospedagem, comércio eletrônico e bens digitais aumentou drasticamente: por exemplo, na Q4 de 2024, o índice de rejeição digital atingiu uma média de 59%, com picos de 816% em viagens e hospedagem, 222% em comércio eletrônico, e 59% em bens e serviços digitais. Entre os altos riscos, entretenimento digital e serviços financeiros representam 30% de todas as disputas.

A raiz do problema está na reversibilidade do sistema de cartões de crédito. Fraudes amigáveis — quando o usuário inicia uma disputa por “transação não autorizada” após o consumo — são uma dor crônica para plataformas digitais. Ainda mais grave é o bloqueio de contas: se a taxa de rejeição ultrapassar o limite, Stripe ou Adyen podem bloquear a conta, impedindo recebimentos por 2 a 4 semanas, levando à perda de clientes que veem a mensagem “pagamento falhou”.

Blockchain não possui mecanismo de “disputa e reversão”. Sua irreversibilidade fundamental corta essa questão na raiz.

Dados do NOWPayments confirmam a escala dessa demanda: o volume de transações de jogos online (iGaming) cresceu 40% em relação ao ano anterior, representando cerca de 15% do mercado de transações de jogos na blockchain. Em 2025, mais de 50% do volume de transações de iGaming em criptomoedas (USDT/USDC) será realizado na blockchain. A motivação para migrar para stablecoins é múltipla — eliminar rejeições é uma delas, mas também há busca por arbitragem regulatória e menor barreira de entrada. O mercado já mudou. A migração aconteceu.

A irreversibilidade elimina rejeições, mas também elimina a rede de segurança do consumidor — esse será tratado na terceira seção.

Motivo 2: Reduzir custos de processamento de pagamentos online

O custo de processamento não é apenas um número, mas uma cadeia de impostos e taxas acumuladas.

Nos EUA, a tarifa padrão do Stripe é 2,9% + US$ 0,30 por transação, com adicional de 1% para cartões internacionais e mais 1% para conversão de moeda — uma compra de US$ 100 de um cliente estrangeiro custa quase US$ 5 só de taxas. A estrutura de tarifas do Adyen, mais transparente para grandes clientes, também ultrapassa facilmente 4% após taxas de intercâmbio e taxas de cartão. Setores de alto risco enfrentam taxas adicionais e reservas de capital — Stripe, por exemplo, recusa-se a atender muitos negócios de entretenimento digital e setores de alto risco.

Um comerciante que processa US$ 500 mil por ano em vendas online gasta entre US$ 15 mil e US$ 20 mil só em taxas de processamento, sem contar rejeições, conversão de moeda ou mensalidades de plataforma.

O custo do processamento com stablecoins é completamente diferente. Plataformas como Triple-A cobram taxas totais entre 0,5% e 1,5%, sem taxas adicionais para transações internacionais ou conversão de moeda — na blockchain, não há distinção entre “doméstico” e “transfronteiriço”. Além disso, a velocidade de liquidação é maior: enquanto o processamento tradicional leva T+2 a T+3 dias, a liquidação com stablecoins pode ser instantânea ou em T+0.

Eric Barbier, fundador da Triple-A, estima que o capital de giro necessário para pagamentos transfronteiriços usando stablecoins é apenas uma fração do necessário na abordagem tradicional — para startups, isso não é apenas eficiência, é uma questão de sobrevivência.

Motivo 3: Atingir usuários com stablecoins e consumidores globais na internet

Esse é o motivo que mais cresce e muitas vezes é subestimado.

Uma pesquisa conjunta da BVNK com YouGov, com mais de 4.600 titulares de stablecoins em 15 países, revelou que:

  • 52% dos titulares já escolheram um comerciante que aceita stablecoins para fazer compras lá — a forma de pagamento virou canal de aquisição de clientes;
  • Os usuários de stablecoins demonstram maior disposição de consumo do que a proporção de uso real, indicando que a barreira não é a vontade, mas a acessibilidade;
  • Usuários de stablecoins têm maior demanda por pagamentos internacionais, com ticket médio e taxa de conversão mais altos do que usuários de cartões de crédito locais.

Dados da Visa e Allium mostram que, em agosto de 2025, o volume de pequenas transferências de stablecoins abaixo de US$ 250 atingirá US$ 5,84 bilhões, uma alta histórica — sinal de consumo cotidiano, não especulação.

Mas o alcance do processamento com stablecoins vai além dos “detentores”. Para consumidores em mercados emergentes com infraestrutura bancária fraca, stablecoins oferecem uma via de participação direta no comércio global, sem passar por bancos tradicionais. Dados de transações de 2023 a 2025 mostram que as motivações variam: nos EUA, é conveniência; na Índia e Nigéria, é contornar restrições bancárias; na Rússia e outros mercados emergentes, é uma alternativa após falhas no sistema de pagamento tradicional. Estratégias globais uniformes podem perder 15% a 20% de potencial de conversão nesses mercados.

A lógica do Razer Gold ao integrar a Triple-A é exatamente essa: uma interface de pagamento que cobre 130 países, sem precisar de integrações locais específicas.

Os três motivos têm um ponto comum: as stablecoins resolvem problemas operacionais reais, não apenas melhorias marginais na experiência de pagamento.

Antes da regulamentação estar totalmente consolidada, o processamento com stablecoins já ocorre em larga escala.

As autoridades reguladoras enfrentam um problema real: não é “permitir ou não”, mas “como estabelecer ordem no que já acontece”.

  1. A lógica de três camadas das plataformas de processamento

Na blockchain, o dinheiro chega ao endereço, e aí?

O sistema de pedidos não reconhece endereços na blockchain, o sistema financeiro não registra USDT, o balanço patrimonial não mantém criptomoedas, as autoridades exigem relatórios de transações suspeitas, e consumidores podem pagar o valor errado ou gerar disputas. Nenhuma dessas questões é resolvida por uma transferência na blockchain.

A lógica de produto de uma plataforma de processamento de stablecoins é justamente incorporar essas questões camada por camada. Quanto mais camadas cobrir, maior o valor do serviço e maior a responsabilidade regulatória.

Primeira camada: camada na blockchain

Gerar endereços de recebimento únicos para cada transação, monitorar o status na blockchain, confirmar recebimentos, traduzir eventos na blockchain em sinais de retorno ao sistema do comerciante. Plataformas maduras oferecem também agregação multi-chain, contratos inteligentes de divisão de pagamento e gerenciamento de status de pedidos (fechamento por timeout, pagamento parcial, ajuste).

Sem essa camada, o comerciante não sabe qual transação na blockchain corresponde a qual pedido. É nesta camada que muitas plataformas se declaram “provedores de tecnologia neutros” — apenas fornecendo ferramentas técnicas, sem intervir no fluxo de fundos, portanto, não são consideradas entidades reguladas.

A validade dessa afirmação depende da próxima camada.

Segunda camada: camada de conformidade

Cada entrada de fundo exige triagem de risco na blockchain (KYT): esse endereço está na lista de sanções? Tem interação com mixers, mercados de dark web ou endereços fraudulentos conhecidos? Transações acima de determinado valor acionam verificação de identidade do pagador. A Travel Rule exige transmissão de informações do pagador e do recebedor entre VASPs. Transações suspeitas devem ser reportadas às autoridades (STR).

Essa camada é o núcleo das obrigações de conformidade e o principal critério de avaliação das autoridades sobre a natureza da plataforma.

As diretrizes do FATF de outubro de 2021 reforçam dois princípios: primeiro, foco na função, não na forma — as autoridades avaliam a funcionalidade do negócio, não sua tecnologia; segundo, o teste de proprietário/operador — mesmo que a estrutura pareça descentralizada, quem mantém controle, cria, possui ou influencia significativamente a plataforma pode ser considerado VASP. Isso inclui quem lucra com o serviço, quem pode alterar parâmetros ou quem mantém relação comercial contínua com os usuários.

Quem exerce controle efetivo sobre o fluxo de fundos — independentemente de manipular ou não o dinheiro — é considerado sujeito regulado. Se há interface, cobrança de taxas, e um operador identificável, o argumento de “tecnologia neutra” não se sustenta. Essa avaliação é mais ampla do que muitos imaginam.

Terceira camada: camada financeira

O usuário paga em USDT, mas o comerciante quer receber em dólares ou euros. É preciso fazer troca instantânea, fixar taxa de câmbio, e liquidar na conta bancária do comerciante. A maioria das empresas não quer manter criptomoedas no balanço — isso é uma restrição financeira, não uma preferência.

Sem liquidação em moeda fiduciária, o recebimento via stablecoin é uma carga financeira, não uma ferramenta de pagamento.

Além dessas três camadas: lacuna na resolução de disputas

As três primeiras lacunas (KYC, KYT, STR) já são cobertas por plataformas que oferecem sistemas integrados. Mas a quarta — resolução de controvérsias de consumo — permanece vazia.

No sistema de cartões, o direito do consumidor de chargeback não é uma função de atendimento ao cliente, mas uma obrigação legal (Regulamento E/Z nos EUA, PSD2 na UE). A irreversibilidade na blockchain elimina rejeições, mas também elimina o canal de recurso do consumidor. Do ponto de vista do comerciante, isso é uma vantagem; do ponto de vista regulatório, é uma lacuna.

Existem três abordagens emergentes: reembolsos manuais off-chain, condições de escrow via contratos inteligentes, e arbitragem on-chain com protocolos como Kleros — mas nenhuma delas é amplamente aplicada em processamento de pagamentos. A proteção ao consumidor não é dispensada por mudanças tecnológicas. Essa questão permanece aberta.

Quanto mais camadas uma plataforma cobre, menor a carga de conformidade do comerciante, mas maior a responsabilidade regulatória da plataforma. Essa é a principal troca do setor.

  1. Escolha de camada: que papel você assume

A estrutura de três camadas é uma questão de escolha. Quanto mais camadas cobrir, mais você define seu papel e seu enfrentamento regulatório. Existem três principais arquiteturas no mercado, cada uma com seu destino e suas implicações.

Leve intervenção: janela de arbitragem regulatória

Plataformas que apenas fazem a primeira camada: geram endereços, monitoram recebimentos, o dinheiro vai direto para a carteira do comerciante. O exemplo típico é a NOWPayments — registrada em São Vicente e Granadinas, com quase nenhuma exigência regulatória real. As obrigações de conformidade estão explicitamente na política de serviço: a FD Transfers LLC declara que “não assume responsabilidade por KYC, KYB ou AML”, e que “o comerciante e o usuário final são totalmente responsáveis por suas transações”.

CoinPayments (gateway de recebimento não custodial com mais de 100 ativos) e PayRam (focado em nós auto-hospedados) seguem o mesmo caminho: apenas fornecem ferramentas técnicas, com responsabilidade de conformidade toda no comerciante e usuário.

Esse modelo funciona bem na fase de vazio regulatório, atendendo setores que os sistemas tradicionais rejeitam. Mas, na ausência de registros, todas as transações passadas podem ser rastreadas a qualquer momento, implicando riscos legais futuros. Decisões de conformidade de hoje influenciam o risco de amanhã e a exposição jurídica de anos anteriores.

O modelo da NOWPayments não é “o que pode dar errado agora”, mas “quando der errado, a janela já estará fechada”.

Intermediário: não mexer com o dinheiro não significa não precisar de licença

Plataformas que fazem a primeira e a segunda camada: geram endereços, fazem triagem KYT e filtram sanções antes da liberação de fundos, mas não fazem troca de moeda ou liquidação fiduciária. Coinbase Commerce (agora Coinbase Payments) é um exemplo comum de uso incorreto dessa arquitetura.

A lógica de uma estrutura direta na blockchain é atraente: o dinheiro vai direto do usuário para o comerciante, sem intervenção da plataforma. Mas a Coinbase nega ser uma provedora de serviços financeiros, deixando claro que não mantém ativos dos comerciantes — embora possa modificar, suspender ou encerrar o serviço. Tem interface, cobra taxas, possui entidade operacional reconhecida, e pode desligar o serviço — todos esses critérios indicam que ela não é apenas uma ferramenta neutra.

A Coinbase possui registro FinCEN MSB, licença de transmissão de moeda em vários estados, e licença BitLicense em Nova York, além de licença CASP em Luxemburgo para a UE. Essa é a abordagem correta para uma estrutura intermediária: ao fazer a segunda camada, a plataforma reconhece sua condição de entidade regulada, sem tentar evitar a classificação como VASP com uma justificativa de “apenas controle de risco”.

Intervenção pesada: transformar conformidade em produto

Plataformas que cobrem todas as três camadas — recebimento, triagem, troca e liquidação — oferecem uma experiência onde o comerciante só vê a entrada de moeda fiduciária, sem contato com criptomoedas. O Triple-A exemplifica esse modelo maduro.

As condições de serviço do Triple-A refletem essa postura: não é apenas uma ferramenta técnica, mas um provedor completo de processamento e liquidação de pagamentos — realiza troca de moeda, deduz taxas, liquida em moeda fiduciária ao comerciante, e inclui obrigações de KYB e conformidade contínua no contrato. Possui licenças em Singapura (MAS MPI), França (ACPR), nos EUA (FinCEN MSB, licenças estaduais), Canadá (FMSB), África do Sul (FSCA).

Grandes nomes como Grab, Razer e Farfetch escolhem o Triple-A não pelo menor custo, mas porque ele absorve toda a complexidade das três camadas, permitindo que empresas acessem mercados que antes eram inacessíveis, sem precisar lidar com criptomoedas. Outros exemplos incluem Stripe, com aquisição da Bridge para suporte ao USDC, e Shift4, que lançará opções de liquidação com stablecoins até o final de 2025. A entrada de grandes players tradicionais é um sinal claro de maturidade do mercado.

A conformidade passa a ser um produto, e seu valor aumenta com o aperto regulatório.

O período de janela de intervenção leve está se fechando, a fronteira regulatória da intervenção intermediária se estreita, e os requisitos para intervenção pesada se elevam. O crescimento do NOWPayments foi impulsionado pelo vácuo regulatório, enquanto o do Triple-A vem do aumento da regulação. Dois motores opostos para o mesmo setor.

  1. A questão de escolha para comerciantes online

A maioria dos comerciantes pergunta: “Nosso sistema é compatível com a conformidade ao integrar stablecoins?”

A resposta é que essa pergunta está incorreta. Não há uma resposta única, pois a conformidade não é uma decisão binária, mas o resultado de duas variáveis cruzadas:

  • Onde estão seus consumidores?
  • Quanta responsabilidade regulatória seu sistema assume?

Somente cruzando essas variáveis é possível determinar quais obrigações ainda cabem ao comerciante.

Variável 1: Onde estão os consumidores?

A obrigação regulatória acompanha o local de realização do negócio, não o registro da plataforma. Uma plataforma registrada nas Ilhas Cayman que atende consumidores em Hong Kong, pagando a comerciantes locais, está sujeita à jurisdição de Hong Kong, independentemente de onde a plataforma esteja registrada. Offshore pode evitar impostos, mas não regula o controle.

Os principais mercados ainda divergem na classificação das stablecoins (ativo virtual ou ferramenta de pagamento), mas, independentemente da classificação, as obrigações de licença são rígidas.

A Tether ainda não recebeu autorização do MiCA, e o status de conformidade do USDT na UE é incerto, com algumas plataformas já removendo USDT. Plataformas que atendem consumidores na UE precisam planejar com antecedência.

Variável 2: Quanta responsabilidade regulatória a plataforma assume?

Quanto mais responsabilidades a plataforma assumir, menos obrigações restam ao comerciante, mas maior o custo de serviço.

Discrepância entre KYC na blockchain

O recebimento com stablecoins tem um problema estrutural: na blockchain, o pagamento não carrega informações de identidade. O usuário escaneia o código, USDT sai de uma carteira — a transação revela apenas um endereço, sem nome, sem documento, sem conta bancária. No sistema tradicional, o KYC do titular é feito pelo banco emissor, que confia nesse resultado. Com stablecoins, não há banco emissor, e essa cadeia de verificação de identidade não existe desde o início.

Isso não significa que carteiras anônimas estejam isentas de requisitos. As autoridades exigem “medidas proporcionais ao risco”: KYT como mínimo, filtragem de endereços sancionados, verificação de identidade acima de certos limites, investigação de comportamentos anômalos. A Travel Rule exige troca de informações entre VASPs, mas, ao usar carteiras auto-hospedadas, essas informações simplesmente não existem.

Essas questões ainda não têm respostas unificadas na legislação — mas as autoridades reguladoras não esperam por isso para agir.

Obter licença apenas comprova que a autoridade permite sua operação. Conformidade real significa executar KYT em cada transação, realizar KYB na entrada de cada comerciante, e ter registros completos quando solicitado. Licença e execução são vulnerabilidades, a diferença é qual será descoberta primeiro.

  1. O que esperar a seguir

As regras estão se formando. Para alguns participantes, isso é uma boa notícia; para outros, uma má notícia.

A regulamentação mais clara será o passaporte de entrada

2024-2025 será um marco na regulação de stablecoins. Os três principais centros financeiros globais concluíram suas legislações básicas — mas isso não significa regras claras. O GENIUS Act regula a emissão, enquanto a implementação do processamento de pagamentos ainda depende de negociações entre estados; o MiCA, com sua licença CASP, tem padrões diferentes em cada país; Hong Kong, com sua lei de stablecoins, ainda não tem casos de aplicação. Uma pesquisa da Fireblocks em março de 2025 mostrou que a percepção de “regulação como obstáculo” caiu de 80% para menos de 20% — mas isso não significa que o caminho esteja livre.

A credibilidade de conformidade substitui a força do produto na atração de clientes

Nos últimos dois anos, o Triple-A expandiu significativamente sua base de clientes corporativos, não por um produto melhor, mas porque sua conformidade oferece segurança para empresas como Grab, Razer e Farfetch. A integração de stablecoins pelo Stripe e a oferta de liquidação com stablecoins pelo Shift4 reforçam que o mercado está evoluindo de uma solução de “zona cinzenta” para infraestrutura de pagamento mainstream.

Isso amplia o mercado de consultores de conformidade, ferramentas de análise on-chain (Chainalysis, TRM Labs) e serviços jurídicos transjurisdicionais, cujo valor aumenta com a regulação. Conformidade não é custo, é negócio.

O custo não é uma questão tecnológica, mas de competição

Quem assume o custo de conformidade? Plataformas que repassam ao comerciante podem perder clientes; quem assume o custo, precisa repassar por meio de margens, levando os comerciantes a questionar: “Por que pagar mais por uma plataforma sem licença?”

A experiência do setor financeiro mostra que, após a padronização regulatória, a competição não desaparece, mas muda de “conformidade vs. não conformidade” para “quem consegue reduzir mais custos dentro do quadro regulatório”.

O processamento de stablecoins seguirá esse padrão — com plataformas sem licença saindo do mercado, o custo de conformidade se torna uma linha de base comum, e a competição será por eficiência nessa linha. Os atuais tamanhos do Triple-A e BVNK são, na essência, uma estratégia de posicionamento para essa disputa.

Quem chegar ao fim dessa jornada, não precisa adivinhar.

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