Divergência de tendências entre ouro e Bitcoin: uma guerra de percepção sobre a definição de ativos de refúgio

Escrita por: Liu Coach

Ao abrir os olhos, o BTC voltou a 70 mil. De manhã, no caminho de carro, a rádio transmitia a notícia de que a expectativa de corte de juros na reunião do Fed em março não se confirmou, apagando toda a valorização deste ano até então.

Recentemente, a crise geopolítica no Oriente Médio se intensificou, causando oscilações nos mercados globais de capitais. Segundo a narrativa clássica das finanças tradicionais, conflitos geopolíticos deveriam elevar o preço do ouro — essa lógica está enraizada na sua propriedade de refúgio seguro há milhares de anos, sendo uma reação instintiva dos participantes do mercado. No entanto, o desempenho do mercado em março de 2026 quebrou essa impressão: o preço do ouro continuou caindo, rompendo o suporte de 4500 dólares, enquanto o Bitcoin sofreu uma queda muito menor do que ações e outros ativos tradicionais de risco, demonstrando uma espécie de “refúgio relativo”.

Essa divergência anômala, aparentemente relacionada às diferenças nos movimentos de preços, na verdade reflete uma mudança estrutural de longo prazo que o mercado tem negligenciado: os grupos de investidores em ouro e Bitcoin estão se diferenciando de forma fundamental. Os primeiros, dominados por bancos centrais e instituições financeiras tradicionais, enquanto os segundos, impulsionados por investidores individuais e participantes de mercados emergentes. Quando enfrentam a mesma crise, esses dois grupos seguem lógicas de comportamento completamente distintas.

  1. Dois tipos de refúgio, duas lógicas

Para entender essa diferenciação, é preciso primeiro saber quem está negociando e por quê.

O poder de precificação do ouro há muito não está mais nas mãos dos investidores individuais. Segundo dados do World Gold Council, nos últimos cinco anos, os bancos centrais globais compraram, em média, mais de 1000 toneladas de ouro por ano, atingindo o maior nível desde que o dólar se desvinculou do ouro em 1971. Em 2020, o ouro representava 14,4% das reservas internacionais, atingindo o maior nível em duas décadas. Países como Rússia, China, Turquia e Índia tornaram-se os principais compradores marginais do mercado de ouro.

A lógica de compra de ouro pelos bancos centrais difere completamente da dos investidores individuais. O Dr. Matthew Ferranti, da Harvard, analisou essa questão em um artigo de 2022 [2]. Ele descobriu que, de 2016 a 2021, países com maior risco de sanções dos EUA aumentaram significativamente suas reservas de ouro, em comparação com outros. A razão é simples: ouro é um ativo que poucos governos controlam, uma reserva de valor que não está sujeita a controle soberano. Quando suas reservas de moeda estrangeira podem ser congeladas ou seus títulos do Tesouro podem ser defaultados, o ouro físico torna-se a última forma de pagamento.

Essa é uma forma de hedge contra riscos soberanos. As decisões dos bancos centrais levam anos ou décadas, sendo pouco sensíveis às oscilações de curto prazo. Eles compram ouro não por preço barato, mas por necessidade estratégica.

Por outro lado, o mercado de Bitcoin é impulsionado por uma lógica completamente diferente. Apesar do aumento da participação de investidores institucionais nos últimos anos, o poder de precificação do Bitcoin ainda está nas mãos dos investidores individuais. Esses investidores estão espalhados pelo mundo, especialmente em países como Turquia, Argentina e Nigéria, onde a inflação descontrolada faz do Bitcoin uma alternativa de proteção contra a desvalorização da moeda.

A lógica de comportamento deles é a desconfiança na moeda fiduciária. Após 2020, as políticas de afrouxamento monetário global fizeram muitas pessoas perceberem que seu dinheiro em espécie está sendo diluído. O limite de 21 milhões de Bitcoins funciona como um âncora psicológica contra a inflação. Quando a crise chega, eles não pensam racionalmente em estratégias de alocação, mas agem por pânico — não para enriquecer, mas para preservar o valor do seu esforço de trabalho.

São duas necessidades de proteção distintas: uma contra riscos políticos soberanos, outra contra a desvalorização da moeda pessoal.

  1. Comportamento em crises: de convergência a divergência

Ao revisar os últimos dez anos de movimentos do Bitcoin e do ouro, é possível identificar uma trajetória evolutiva clara.

Antes de 2020, a correlação entre Bitcoin e ouro era instável. Durante a crise de Chipre em 2013, o Bitcoin subiu bastante, sendo considerado um sinal precoce de refúgio; já em 2020, no início da pandemia, ambos caíram juntos e depois se recuperaram em sintonia.

Porém, após 2023, a situação mudou. Segundo dados do CoinMetrics, a correlação móvel de 30 dias entre Bitcoin e ouro caiu de 0,72 em 2021 para -0,12 em 2023, chegando a -0,35 no primeiro trimestre de 2026 [3]. Isso indica que os dois ativos começaram a se mover de forma oposta.

O ponto de inflexão dessa diferenciação coincide com o aumento acelerado das compras de ouro pelos bancos centrais e a institucionalização do Bitcoin. Após o conflito Rússia-Ucrânia em 2022, cerca de 300 bilhões de dólares em reservas externas russas foram congelados, levando os bancos centrais a repensar a segurança do dólar. Desde então, o ouro passou a ser uma prioridade de reserva. Ao mesmo tempo, a aprovação de ETFs de Bitcoin nos EUA atraiu fundos de instituições tradicionais, mudando a estrutura de investidores.

Surge, assim, uma situação interessante: quando os bancos centrais compram ouro de forma estratégica, seu preço tende a cair. Por quê? Porque suas compras são contracíclicas — eles querem comprar mais quando o preço estiver mais baixo. Enquanto isso, o mercado de Bitcoin, dominado por investidores individuais preocupados com a desvalorização, mantém-se relativamente forte.

Isso não significa que o refúgio do ouro tenha falhado, mas que sua lógica de precificação está sendo cada vez mais influenciada pela demanda soberana.

  1. Narrativa do ouro digital: de mito a revisão

Desde sua criação, o Bitcoin foi apresentado como o “ouro digital”. Essa narrativa baseia-se em alguns pilares: escassez, resistência à inflação, proteção contra riscos e armazenamento de valor. Contudo, a crise atual colocou essa narrativa à prova.

Se o Bitcoin fosse realmente o “ouro 2.0”, ele deveria subir como o ouro em crises geopolíticas, ou pelo menos não cair mais do que o ouro. Mas a realidade mostra que, enquanto o ouro caiu, o Bitcoin permaneceu relativamente resistente — eles não se moveram em sintonia, mas se diferenciaram.

Isso não significa que a narrativa do ouro digital esteja errada. Talvez seja mais preciso dizer que: a proteção do Bitcoin contra riscos não é a mesma do ouro.

O ouro protege contra riscos soberanos — quando a confiança entre países desmorona, e reservas fiduciárias podem ser congeladas, o ouro é uma moeda forte que não pode ser confiscada.

O Bitcoin, por sua vez, protege contra riscos de moeda — quando a impressão excessiva de dinheiro pelos bancos centrais causa inflação, ou quando há crise de confiança no sistema bancário, o Bitcoin é uma alternativa que não depende de controle centralizado.

Assim, o Bitcoin e o ouro não são substitutos, mas complementares. Cada um atende a uma necessidade de proteção diferente, para diferentes perfis de investidores.

Na análise do Dr. Ferranti, há uma conclusão importante: em cenários de risco de sanções, a alocação ideal de reservas dos bancos centrais pode chegar a 5% em Bitcoin; se não houver acesso suficiente ao ouro físico, esse percentual pode subir para 10% [4]. Ainda assim, o ouro continua sendo a primeira escolha, devido às suas propriedades físicas que garantem confiabilidade em situações extremas.

Isso indica que, para o Bitcoin realmente se consolidar como o “ouro digital”, ele precisa ser oficialmente reconhecido como reserva pelos bancos centrais. Até lá, sua principal força motriz continuará sendo o medo dos investidores individuais de desvalorização da moeda fiduciária.

  1. Movimentação de capitais no futuro: diferentes crises, diferentes cenários

Cada tipo de crise impacta de forma distinta o Bitcoin e o ouro.

Se for uma crise geopolítica, como mencionado, o ouro pode ser pressionado pelos bancos centrais, enquanto o Bitcoin tende a se manter mais forte devido à demanda de investidores individuais por refúgio.

Em uma recessão global, o cenário pode inverter. Durante a crise de 2008, o ouro subiu bastante após a crise de liquidez; na pandemia de 2020, o Bitcoin caiu inicialmente, mas se recuperou rapidamente. Nesses casos, os movimentos tendem a ser mais sincronizados, com o Bitcoin mostrando maior elasticidade.

Em crises de hiperinflação ou descontrole monetário, o Bitcoin costuma se sair melhor. A alta de 2020-2021 mostrou que, quando os bancos centrais expandem a oferta de dinheiro, o Bitcoin é um dos maiores beneficiados, enquanto o ouro, por sua vez, sofre com a pressão de taxas de juros reais negativas.

Se ocorrer uma crise sistêmica no ecossistema cripto, como os eventos Luna e FTX em 2022, o Bitcoin pode sofrer quedas acentuadas, enquanto o ouro pode se tornar um porto seguro.

Portanto, para investidores, a questão de se o Bitcoin é ou não o “ouro digital” não é suficiente. O mais importante é entender as diferentes dinâmicas de cada ativo diante de diferentes crises e tomar decisões alinhadas a elas.

  1. Conclusão

A diferenciação entre o movimento do ouro e do Bitcoin não é mera volatilidade de mercado, mas uma consequência das distintas necessidades de proteção, estruturas de investidores e contextos históricos.

Por trás do ouro, há a vigilância dos bancos centrais contra a hegemonia do dólar e a defesa do soberano. Por trás do Bitcoin, há a ansiedade de milhões de pessoas comuns com a desvalorização da moeda fiduciária e a busca por autonomia financeira.

Essas forças estão redefinindo o conceito de ativos de refúgio. No futuro, quando novas crises surgirem, provavelmente veremos ainda mais divergências e surpresas. Mas uma coisa é certa: quem compreender essas diferenças de lógica terá vantagem nesta batalha de percepções.

Referências:

[1] World Gold Council, “Central Bank Gold Reserves - 2025 Report”, 2026

[2] Matthew Ferranti, “Hedging Sanctions Risk: Cryptocurrency in Central Bank Reserves”, *NBER Working Paper*, Nov 2022

[3] CoinMetrics, “Bitcoin & Gold Correlation Analysis (2020-2026)”, Mar 2026

[4] Matthew Ferranti, “Hedging Sanctions Risk: Cryptocurrency in Central Bank Reserves (Seções 5-7)”, *NBER Working Paper*, Nov 2022

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