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Recentemente, comecei a pesquisar a história de Chris Larsen e, na verdade, sua trajetória revela algo importante sobre como se constrói infraestrutura financeira real. Não é apenas hype de cripto.
Tudo começou de uma maneira bastante mundana. Aos 15 anos, Chris Larsen tinha um pequeno negócio consertando amassados de carros em São Francisco. O problema: seus clientes não pagavam. Enquanto seu pai cobrava pontualmente a cada duas semanas consertando motores de aviões, e sua mãe esperava meses por suas ilustrações, Larsen aprendeu algo fundamental: o sistema financeiro foi projetado para os ricos, não para o povo comum.
Essa frustração o perseguiu por décadas.
Depois de estudar negócios internacionais e contabilidade na San Francisco State, Chris Larsen trabalhou como auditor na Chevron, viajando pelo Brasil, Equador e Indonésia. Depois, fez um MBA em Stanford com Jim Collins, que lhe ensinou a construir empresas que durassem décadas, não apenas a ganhar dinheiro rápido. Isso moldou sua mentalidade.
Em 1996, quando a maioria dos empreendedores criava sites para vender comida para cães, Larsen viu algo diferente: e se a internet fosse aplicada às hipotecas? Fundou a E-Loan com Janina Pawlowski. A ideia era simples, mas revolucionária: colocar as solicitações de empréstimos online, eliminando corretores desnecessários e reduzindo o tempo de aprovação de semanas para dias.
Mas Chris Larsen fez algo ainda mais importante. A E-Loan foi a primeira a mostrar gratuitamente aos consumidores seu score FICO. Isso obrigou toda a indústria de crédito a ser transparente. Antes, os bancos usavam esses scores como uma caixa preta para decidir quem merecia um empréstimo. Depois, as pessoas entendiam por que recebiam certas taxas.
Em 1999, a E-Loan saiu na bolsa avaliada em cerca de 1 trilhão de dólares. Mas Chris Larsen não perseguiu a bolha. Em 2005, vendeu para o Banco Popular por 300 milhões.
A próxima obsessão: e se as pessoas comuns pudessem se emprestar dinheiro diretamente, sem bancos? Em 2005, Chris Larsen fundou a Prosper Marketplace com John Witchel, a primeira plataforma P2P de empréstimos nos Estados Unidos. Os tomadores publicavam solicitações, os investidores escolhiam quais financiar. O mercado fixava taxas reais, não fórmulas opacas.
Mas a Prosper enfrentou algo que a E-Loan nunca teve: incerteza regulatória. Em 2008, a SEC determinou que os empréstimos P2P eram valores mobiliários. Muitas empresas teriam buscado brechas legais. Chris Larsen optou por colaborar. A Prosper apresentou um prospecto, ajustou seu modelo e superou o desafio regulatório. Aprendeu que não basta criar tecnologia melhor: é preciso ajudar os reguladores a entender por que novas regras são necessárias.
Em 2012, enquanto renunciava como CEO da Prosper, Chris Larsen pensava em algo mais ambicioso: pagamentos internacionais ainda eram mais difíceis do que enviar um email. Transferências que levavam dias, custavam fortunas e falhavam sem explicação.
Assim nasceu a Ripple. Em setembro de 2012, Larsen e o programador Jed McCaleb fundaram a OpenCoin ( depois Ripple Labs, depois simplesmente Ripple ). O objetivo: um protocolo que liquidasse transações entre qualquer moeda em segundos, não dias. Chris Larsen chamou isso de "a internet do valor".
Ao contrário do Bitcoin, a Ripple não buscava substituir moedas tradicionais. Queria que elas fluíssem de forma mais eficiente. Os bancos podiam usar XRP como ativo ponte: converter dólares em XRP, transferir, converter para euros. Tudo em segundos.
Durante a gestão de Chris Larsen como CEO, a Ripple assinou acordos com Santander, American Express e Standard Chartered. Bancos reais processando milhões de dólares em pagamentos reais. Em 2017-2018, o XRP se tornou um dos ativos mais valiosos. No pico, a participação de Larsen valia mais de 59 bilhões de dólares.
Mas em 2016, Chris Larsen renunciou como CEO para focar em estratégia e relações regulatórias, trazendo Brad Garlinghouse para as operações diárias.
Depois veio a tempestade. Em dezembro de 2020, a SEC processou a Ripple, alegando que o XRP era um valor mobiliário não registrado e que a empresa havia arrecadado 1,3 bilhões ilegalmente. Muitos executivos de cripto teriam negociado rapidamente. Chris Larsen escolheu lutar. A Ripple gastou dezenas de milhões em advogados, argumentando que o XRP era uma moeda como Bitcoin ou Ethereum.
Em 2023, a juíza Analisa Torres determinou que as vendas de XRP não constituíam oferta de valores mobiliários. Vitória parcial, mas validou a estratégia de Chris Larsen. Em 2025, a SEC abandonou a apelação com um acordo de 125 milhões. Multa considerável, mas muito menor do que o esperado.
Enquanto a batalha legal acontecia, a Ripple continuou expandindo. Em abril de 2025, adquiriu a Hidden Road por 1,25 bilhões, somando serviços de trading e custódia. Busca licença bancária nacional e colabora com o BNY Mellon para custódia de sua stablecoin RLUSD.
Mas o impacto de Chris Larsen vai além da Ripple. Em 2019, junto com sua esposa Lyna Lam, doou XRP no valor de 25 milhões para a San Francisco State, a maior doação em cripto de uma universidade americana. Financiou cátedras em fintech e programas globais.
Também financiou campanhas de privacidade. A coalizão Californians for Privacy Now conseguiu que a Califórnia aprovasse uma lei de privacidade financeira com 600 mil assinaturas, pressionando grandes empresas financeiras.
Recentemente, Chris Larsen tem focado no impacto ambiental. Em 2021, lançou "Change the Code, Not the Climate", financiando esforços para que mineradores de Bitcoin troquem a prova de trabalho por alternativas mais eficientes. Isso o colocou em confronto com maximalistas de Bitcoin, mas Larsen acredita que, se as criptomoedas querem adoção em massa, precisam abordar o clima. "Este movimento não é anti-bitcoin, é anti-poluição", diz.
Aos 64 anos, Chris Larsen continua trabalhando seis dias por semana. Restaura carros clássicos dos anos 60 com seus filhos, projetos que levam três anos. Reflete sua meticulosidade característica.
Sua carreira conta algo diferente do hype cripto típico. Três empresas, três desafios ao sistema financeiro que não servia ao povo comum. A E-Loan tornou as hipotecas transparentes. A Prosper democratizou empréstimos. A Ripple acelerou pagamentos internacionais. Cada uma construiu infraestrutura que outros poderiam usar.
Isso exige paciência e visão de longo prazo. Qualidades raras em uma indústria famosa por hype e lucros rápidos. Chris Larsen demonstrou que construir com paciência gera mudanças duradouras.