Circulou a notícia de que um cão foi desenvolvido uma vacina contra o câncer usando ChatGPT. Especialistas esclarecem que a IA apenas auxilia na pesquisa, sendo a pesquisa real responsabilidade de cientistas profissionais, e alertam para não exagerar o papel da IA na medicina, além de que o caso ainda carece de evidências científicas.
Greg Brockman, cofundador da OpenAI, compartilhou recentemente uma história que gerou atenção. O protagonista é o consultor de IA australiano Paul Conyngham e seu cão Shar Pei, Rosie, de 7 anos.
Rosie é uma cadela com câncer, inicialmente diagnosticada com poucos meses de vida, e Conyngham afirma que, com a ajuda do ChatGPT da OpenAI, conseguiu desenvolver uma terapia de vacina de mRNA contra o câncer.
Após a divulgação, a comunidade ficou intrigada, alguns exagerando e comparando a IA a um milagre médico como Hua Tuo. Apesar de parecer uma cura real, alguns pesquisadores começaram a questionar a capacidade real de grandes modelos de linguagem (LLMs) na criação de vacinas, e a papel verdadeiro do ChatGPT.
Vamos voltar ao momento em que a terapia foi descoberta. Conyngham diz que usou o AlphaFold, da Google, para modelar a proteína c-KIT no corpo de Rosie, comparando com dados de saúde, e descobriu que a mutação correspondia às previsões da literatura.
Depois, buscou compostos que atacassem essa proteína, encontrando um medicamento aprovado nos EUA para outros cânceres. Conyngham explicou ao programa australiano Today Show que eles extraíram o tumor para sequenciamento de DNA, transformaram o tecido em dados, identificaram o problema e desenvolveram uma solução, ressaltando que o ChatGPT ajudou em todo o processo.
Conyngham então entrou em contato com o professor Palli Thordarson, diretor do Instituto de RNA da Universidade de New South Wales (UNSW). O Dr. Martin Smith realizou o sequenciamento e transformação dos dados, enquanto o professor Thordarson foi responsável por montar a vacina de mRNA.
Fonte: UNSW Sydney, Instituto de RNA, professor Palli Thordarson
Ao confirmar o blueprint de moléculas específicas, Conyngham revelou que a estrutura final da vacina foi projetada pelo Grok, enquanto a Gemini também contribuiu significativamente.
O ChatGPT foi usado principalmente para filtrar artigos e buscar pesquisadores, enquanto o AlphaFold previu a estrutura tridimensional da proteína. Conyngham usou o AlphaFold com uma pontuação de confiança de 54,55, que é considerada baixa por biólogos estruturais como a Dra. Kate Michie, que alertou que o sistema pode errar e que os resultados precisam de validação laboratorial.
O Dr. Smith confirmou que o AlphaFold não foi usado para projetar a vacina, e o Dr. Thordarson afirmou que, embora o tratamento tenha dado mais tempo a Rosie, alguns tumores não responderam, sendo necessário o uso de inibidores de checkpoint.
Embora a tentativa de Conyngham não signifique uma falha completa da IA na medicina, os princípios científicos por trás são validados, e os pesquisadores envolvidos possuem credenciais reconhecidas.
Porém, nesta história de desenvolvimento de uma vacina de mRNA contra câncer, o maior reconhecimento vai para os cientistas e instituições que trabalharam arduamente, especialmente aqueles responsáveis pelo sequenciamento, produção da vacina e elaboração de protocolos de segurança.
Chatbots de IA podem ajudar na navegação e organização de literatura científica, mas ainda há um longo caminho até substituir o conhecimento especializado e infraestrutura necessários para projetar e produzir soluções médicas.
Em setembro do ano passado, uma equipe de pesquisa da Universidade de Stanford, nos EUA, usou um modelo de IA biológica chamado Evo para projetar, pela primeira vez, um vírus vivo (bacteriófago), mas ainda está longe de desenvolver uma vacina.
O doutor em biologia molecular da Universidade Chang Gung, Taiwan, Huang Yi, aponta três principais equívocos na história de “usar ChatGPT para fazer vacina contra câncer em cães”:
Ele conclui: “A mídia gosta de escrever narrativas de milagres com IA, mas a ciência não funciona assim.”