Sabor: O mesmo obstáculo no mundo académico e no empreendedorismo

Escrevendo: Yajin

Recentemente, encontrei algumas situações que me fizeram refletir sobre a palavra “taste”, que tem estado bastante em voga recentemente, e decidi compartilhar minhas impressões com vocês.

  1. Currículo cheio, compreensão superficial

Nesta semana, entrevistei um estudante de graduação que queria ingressar no nosso grupo.

O currículo dele parecia muito bom. Participou de 3 projetos de pesquisa, além de ter um artigo publicado. Para um estudante de graduação, essa produção já supera a de muitos mestrandos.

Na entrevista, perguntei qual era a motivação do primeiro projeto. Ele deu uma resposta bastante genérica. Perguntei detalhes técnicos, ele conseguiu explicar o que fez, mas não soube dizer por que fez assim. Quais problemas esse trabalho resolveu? Em que se diferencia essencialmente dos métodos anteriores? Não soube responder.

No segundo projeto, a situação foi semelhante.

Ao chegar ao terceiro projeto, já consegui entender mais ou menos. O estudante fez muitas coisas, mas não compreendeu verdadeiramente nenhuma delas. Sua experiência de pesquisa não é “interesse por um problema e aprofundamento”, mas aquela coisa comum nas redes sociais de “aumentar a experiência de pesquisa”, participando sempre que pode, fazendo, trocando de projeto, colocando uma linha a mais no currículo como uma conquista, transformando a pesquisa em um jogo de pontos.

  1. Outro tipo de “puxador de experiência”

Mais ou menos na mesma época, um amigo comentou comigo sobre um fenômeno na comunidade de hackathons.

Existem participantes que participam de hackathons por aí. Neste fim de semana, em uma competição; no próximo, em outra. No currículo, está escrito “Vencedor de hackathon XX”, mas, ao olhar mais de perto, o que fazem é sempre parecido: usar uma API de IA, colocar uma interface, fazer um demo. Depois, o projeto morre.

Esse tipo de pessoa é chamado pelo meu amigo de “puxador de hackathons”.

Ao ouvir isso, percebi que essa questão é semelhante à do estudante que entrevistei.

Aparentemente, um está no mundo acadêmico, outro no empreendedorismo, cenários diferentes, mas o núcleo é o mesmo: usar quantidade para substituir profundidade, experiência para substituir compreensão, números no currículo para substituir julgamento verdadeiro.

Esse padrão de comportamento tem um nome mais preciso: “puxar experiência”.

  1. Limite de puxar experiência

Não me interpretem mal, não estou dizendo que puxar experiência não serve para nada. Para quem está começando, tentar várias coisas ajuda a entender o panorama de um campo e descobrir interesses.

Porém, há um limite rígido: isso ajuda a “saber o que existe”, mas não ajuda a julgar “o que vale a pena fazer”.

Esse limite pode ser visto em muitos lugares.

Na Apple App Store, há mais de 2 milhões de aplicativos. Segundo a Business of Apps, quase um quarto deles tem menos de 100 downloads. Desenvolvedores se esforçam, mas a maior parte faz algo “funcional”, que ninguém precisa.

No campo de ferramentas de IA, a situação é ainda mais evidente. Nos últimos dois anos, muitas “camadas” de IA entraram no mercado, fazendo coisas muito semelhantes: envolver uma API de ChatGPT, colocar uma interface, criar um “assistente de escrita” ou “resumo de reuniões”. A maioria não atrai atenção, mas alguns poucos produtos permanecem e prosperam. A diferença entre esses e os que fracassaram não é habilidade técnica ou financiamento, mas taste.

  1. O que é taste

“Taste” é uma palavra difícil de traduzir. Pode ser gosto, estética, julgamento — cada tradução captura uma parte.

Para mim, taste é: a capacidade de escolher, entre 100 possibilidades, aquela que realmente vale a pena fazer.

Steve Jobs, em uma entrevista famosa de 1995, disse: “The only problem with Microsoft is they just have no taste. They have absolutely no taste. And I don’t mean that in a small way. I mean that in a big way, in the sense that they don’t think of original ideas and they don’t bring much culture into their product.”

O foco de Jobs não era se a interface era bonita. Ele criticava a falta de originalidade e de cultura nos produtos da Microsoft. Eles fazem de tudo, mas não sabem o que realmente vale a pena.

Claro que não quero dizer que a Microsoft não seja bem-sucedida. Ela é, na área comercial, extremamente bem-sucedida. Mas sua linha de produtos parece fragmentada. Trabalhando na CUHK, usamos soluções empresariais da Microsoft, incluindo o Microsoft 365, que também usamos na nossa empresa. Honestamente, é difícil de usar, uma dor de cabeça. Vendas de produtos B2B envolvem muitos fatores além do produto, e taste não é o único.

Richard Hamming, em seu clássico discurso “You and Your Research” de 1986, contou uma história. Quando trabalhava na Bell Labs, perguntava frequentemente aos colegas: qual é o problema mais importante na sua área? Quais problemas você está tentando resolver? Se o que você faz não é importante, por que fazer?

A maioria das pessoas parava de almoçar com ele ao ouvir a última pergunta.

Hamming tinha uma lógica clara: fazer a coisa certa é mais importante do que fazer bem a coisa errada. “Se você não trabalha em um problema importante, é pouco provável que produza trabalho importante.”

Alguns podem pensar: “Não quero ser um acadêmico como Hamming, isso não é minha praia.” Mas a verdade é que essa lógica vale para qualquer área, seja pesquisa, desenvolvimento de produto ou escolha de carreira: onde você investe seu tempo.

E isso é taste. Na academia, é a capacidade de escolher o problema certo. Na indústria, é a capacidade de escolher a direção certa para o produto.

  1. Taste na academia: uma experiência pessoal

Em 2012, publicamos um artigo sobre segurança do Android na IEEE S&P, uma das principais conferências do setor.

Hoje, olhando para trás, a segurança do Android é um campo consolidado, estudado há mais de uma década. Mas, em 2012, era bem diferente. O Android tinha poucos anos, e a atenção da academia para segurança móvel era escassa, com foco maior em PCs tradicionais.

Na época, eu era estudante de doutorado, sem muita noção de qual direção seguir. Escolhi pesquisar segurança do Android por taste do meu orientador. Ele percebeu que os smartphones estavam se tornando a principal plataforma de computação, e que problemas de segurança surgiriam. Essa previsão não era óbvia na época; muitos achavam que segurança móvel não tinha muito a explorar.

O resultado confirmou que a direção foi acertada. Nosso artigo foi bastante citado, e mais importante, nos estabeleceu na área de segurança do Android. Muitos trabalhos posteriores partiram dessa base.

Se o orientador não tivesse esse taste, talvez tivéssemos ido atrás de tendências, fazendo o que todo mundo fazia. Talvez publicássemos, mas dificilmente teríamos o impacto que tivemos.

Esse é o valor do taste na academia. Escolher bem o problema dá direção para anos de trabalho. Escolher mal é só acumular números.

  1. Taste na indústria: mais evidente na era da IA

Na indústria, taste se manifesta na escolha de produtos. Fazer algo “funcional” é fácil; fazer algo que o usuário “não consegue viver sem” é difícil.

A era da IA amplificou esse ponto.

Porque a IA reduziu drasticamente o custo de execução. Antes, criar um produto levava meses de uma equipe; agora, uma pessoa pode fazer um protótipo em dias usando IA. A execução deixou de ser o gargalo, o julgamento passou a ser.

Isso é semelhante ao que acontece na App Store. A capacidade de desenvolver não é mais uma barreira; o que falta é direção. Quando todos podem fazer apps, fazer apps não é mais diferencial. O que importa é saber o que fazer.

No campo de ferramentas de IA, o exemplo é claro. Entre 2024 e 2025, surgiram centenas de ferramentas de produtividade baseadas em IA. A maioria faz coisas parecidas: usar uma API de grande modelo, colocar uma interface, resolver uma demanda vaga de “aumentar eficiência”.

Alguns produtos, pelo menos no começo, acertaram na direção. Por exemplo, equipes que repensaram “como deve ser a programação com IA” ou “qual deve ser a experiência de busca na era da IA”. Ainda não dá para saber se vão prosperar, mas a diferença entre esses e as cópias é o taste: decidir qual problema resolver e para quem.

  1. De onde vem o taste

Aqui surge uma dúvida: será que o taste pode ser cultivado ou é algo inato?

Paul Graham, em seu artigo “Taste for Makers”, responde bem: taste não é preferência subjetiva, é uma habilidade de julgamento que pode ser desenvolvida.

Ele diz que um bom design tem características comuns: simplicidade, resolver o problema certo, parecer fácil, mas exigir esforço por trás. E o segredo para cultivar o taste é “não tolerar o feio” (intolerance for ugliness).

Parece contraditório: quem faz produto costuma dizer “não busque perfeição, lance rápido e melhore depois”. Mas não é conflito. Taste é não se contentar com o caminho errado. Se escolher o problema errado, fazer tudo perfeito não adianta. Por outro lado, fazer uma versão inicial rápida, mesmo que grosseira, para validar a direção, é uma demonstração de taste: focar na decisão, não na perfeição de algo que talvez nem devesse existir.

Com minha experiência, vejo alguns caminhos para desenvolver o taste:

Primeiro, consumir muitas coisas boas.

Ler bons artigos, para entender o que é ruim. Usar bons produtos, para perceber o que há de melhor. O ponto de partida do taste é o conhecimento.

Segundo, trabalhar com pessoas que tenham taste.

Meu taste na segurança do Android veio do meu orientador. Ele não me ensinou explicitamente o que é taste, mas, nas discussões, fui entendendo como ele enxerga os problemas e avalia se um caminho vale a pena.

Taste é difícil de aprender só com leitura, porque é uma habilidade de julgamento, não conhecimento. Mas pode ser transmitida por interação com pessoas de bom taste ao longo do tempo.

Por isso, trabalhar em laboratórios bons, com colegas de qualidade, é fundamental. Ter colegas excelentes ao seu lado permite aprender com eles. Infelizmente, vejo gente que inveja ou compete com colegas talentosos, ao invés de aprender com eles, cegada pelo ciúme.

Terceiro, aprofundar-se em um campo.

O problema de puxar experiência é que você fica como turista em cada área. Turista vê pontos turísticos; quem conhece bem, sabe os caminhos.

Trabalhar profundamente em uma área ajuda a desenvolver uma sensação: entender quais são os problemas realmente importantes, quais são superficiais. Saber qual método é o caminho certo, qual é o beco sem saída. Essa sensação é o taste.

Quarto, aprender a dizer “não fazer”.

No fundo, taste é escolher o que não fazer. Para pesquisadores, significa recusar temas que geram publicações, mas não são relevantes. Para empreendedores, significa rejeitar ideias com mercado, mas sem valor.

  1. Voltando àquela entrevista

Voltando à entrevista do começo do texto.

O estudante não era incapaz nem desmotivado. O problema é que, nos últimos anos, ninguém lhe mostrou (ou ele não percebeu) que fazer três projetos superficiais não é melhor do que fazer um profundo.

Se ele tivesse concentrado tempo e esforço em um problema importante, entendido seu contexto, pensado cuidadosamente na metodologia, analisado os resultados, sua resposta na entrevista seria completamente diferente. O que faltou não foi uma habilidade, mas uma compreensão.

Hamming dizia que taste é algo que não se ensina em palavras, mas se desenvolve com prática e observação. Concordo parcialmente. É difícil ensinar taste em uma aula, mas é possível criar condições para cultivá-lo: encontrar um bom problema, dedicar tempo suficiente, trabalhar com pessoas de bom julgamento.

Para quem está só acumulando experiências, minha sugestão é: pare. Encontre um problema que realmente importa para você. Dedique dois anos a ele. Sua compreensão profunda desse problema vale mais do que 10 experiências no currículo.

Referências

[1] Business of Apps, “Apple App Store Statistics [2]2026[3].”

[4] Steve Jobs, “The Lost Interview,” 1995 [1]PBS entrevista com Robert Cringely(

) Richard Hamming, “You and Your Research,” Bell Communications Research, 7 de março de 1986

[2] Paul Graham, “Taste for Makers,” fevereiro de 2002

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