Escrever: Lin Wanwan, Beating
O mercado de criptomoedas de 2025 está muito fragmentado.
BTC recuou mais de 30% no ano, as altcoins estão sangrando, e os gritos de “criptomoedas mortas” ecoam incessantemente. Os novos investidores que entraram no início do ano, buscando lucros rápidos, tiveram suas contas reduzidas à metade; alguns já desinstalaram os aplicativos das plataformas de negociação, outros ainda estão resistindo na esperança de recuperação. O sentimento na comunidade cripto atingiu o ponto mais baixo desde o colapso da FTX em 2022.
Mas, no meio desse caos, outro grupo está comprando avidamente.
De acordo com dados da PitchBook, o total de fusões e aquisições no setor de criptomoedas em 2025 atingiu 8,6 bilhões de dólares, com 267 transações, um aumento de 18% em relação ao ano anterior. Esse número é quase 4 vezes maior que o de 2024, superando a soma dos últimos quatro anos. Se considerarmos uma métrica mais ampla da Architect Partners, o total chega a 12,9 bilhões de dólares.
O volume das principais transações é impressionante: Coinbase investiu 2,9 bilhões de dólares na aquisição da gigante de opções Deribit, estabelecendo o maior recorde de aquisição na história do setor cripto; Kraken gastou 1,5 bilhões de dólares para adquirir a plataforma de futuros tradicionais NinjaTrader, sendo chamada de “a maior fusão entre TradFi e Crypto”; Ripple adquiriu por 1,25 bilhões de dólares a corretora de Wall Street Hidden Road, entrando oficialmente no mercado de finanças institucionais.
Investidores de varejo estão saindo com medo, enquanto instituições estão acumulando posições em meio às ruínas.
Curiosamente, essas instituições não estão comprando criptomoedas. Se acreditam na valorização do BTC, basta comprar BTC diretamente; por que gastar dezenas de bilhões na aquisição de empresas?
Elas estão comprando plataformas de negociação, licenças, custodians, canais de pagamento e sistemas de liquidação.
Estão adquirindo a infraestrutura do setor como um todo.
Isso lembra a Wall Street pós-crise financeira de 2008. Lehman Brothers quebrou, Bear Stearns desapareceu, mas JPMorgan Chase e Goldman Sachs sobreviveram e aproveitaram para adquirir ativos. Após a crise, os mais fortes ficaram mais fortes, e a concentração do setor aumentou significativamente.
Em 2025, o setor de criptomoedas está vivendo uma narrativa semelhante.
Por que o setor financeiro tradicional está “fazendo o fundo”
Por que em 2025? Porque três chaves estão girando ao mesmo tempo.
A primeira é a troca de liderança na SEC.
Na era de Gary Gensler, o setor cripto vive em um estado de “conformidade de Schrödinger”: você não sabe se seu token é um valor mobiliário, não sabe se a plataforma de negociação será considerada ilegal amanhã, não sabe se a sua empresa ainda existirá ao acordar. Coinbase, Binance, Kraken, Ripple, Uniswap, OpenSea — quase todas as empresas de destaque receberam intimações ou Wells Notices da SEC.
Essa incerteza é o maior inimigo de fusões e aquisições. Nenhuma instituição financeira séria quer gastar 1 bilhão de dólares comprando uma empresa que pode ser regulada e “eliminada” a qualquer momento. Como fazer due diligence? Como construir modelos de avaliação? Como precificar riscos legais? Tudo são perguntas sem resposta.
Em janeiro de 2025, o governo de Trump assumiu, e a postura da SEC mudou 180 graus. O novo presidente interino, Mark Uyeda, criou na sua primeira semana a Crypto Task Force, anunciando que usaria o “diálogo” em vez de “apreensão”. Nos meses seguintes, a SEC cancelou quase 60% das ações judiciais relacionadas a criptomoedas: os processos contra Coinbase, Binance, Kraken foram encerrados, e a famosa ação contra Ripple, que durou quatro anos, terminou em acordo.
O mais importante é a forma de encerrar esses processos: “with prejudice”, termo jurídico que significa que não podem ser reabertos. Isso deu ao mercado uma sensação de que a questão foi resolvida de vez.
A segunda chave é a liberação de licenças.
Em 12 de dezembro, o Office of the Comptroller of the Currency (OCC) aprovou licenças de bancos fiduciários nacionais para cinco empresas de criptomoedas: BitGo, Circle, Fidelity Digital Assets, Paxos e Ripple. Isso permite que elas acessem diretamente o sistema do Federal Reserve, oferecendo serviços de custódia, pagamento e liquidação, com os mesmos privilégios dos bancos tradicionais.
Um dado que ilustra bem a situação: em todo o ano de 2025, o OCC recebeu 18 pedidos de licenças bancárias; em 2024, apenas um. Com as portas abertas, todos querem entrar.
A terceira chave é o GENIUS Act.
Em 18 de julho, a primeira legislação federal de criptomoedas nos EUA entrou em vigor. Essa lei estabeleceu regras para stablecoins: reserva 1:1, divulgação mensal, prioridade de pagamento em caso de falência. Mais importante, ela deixou claro que stablecoins conformes não são valores mobiliários nem commodities, ficando fora do alcance da SEC e CFTC.
Isso equivale a emitir uma “certidão de bom comportamento” para stablecoins: bancos podem operar com segurança, empresas de pagamento podem integrar-se sem medo de serem reguladas de repente.
A retirada de processos pela SEC elimina riscos legais; a aprovação de licenças pelo OCC garante capacidade operacional; a aprovação do GENIUS Act transforma stablecoins em produtos financeiros conformes. Com as três chaves girando juntas, uma porta que ficou fechada por uma década se abriu.
À porta, há uma multidão segurando cheques.
A corrida dos três grandes compradores
No que diz respeito à ambição e ao cenário de fusões e aquisições em 2025, o MVP é, sem dúvida, Ripple.
Falando de Ripple, muitas pessoas na comunidade cripto ainda lembram da “empresa XRP” — aquela que foi processada pela SEC em 2020, e que lutou na Justiça por quatro anos. Mas, após 2024, Ripple virou outra coisa.
Os processos judiciais estão praticamente resolvidos (a sentença final de agosto de 2024 reduziu a multa de 2 bilhões para 125 milhões de dólares), a empresa possui uma grande quantidade de caixa e começou uma expansão agressiva. Seu core business já se transformou: custódia, stablecoins, canais de conformidade — tudo que gera receita.
Neste ano, Ripple investiu 2,7 bilhões de dólares em aquisições, tornando-se a terceira maior empresa financeira dos EUA a realizar duas aquisições de 1 bilhão de dólares ou mais no mesmo ano, após Morgan Stanley e o banco comunitário de Nova York. A última vez que Morgan Stanley fez algo assim foi em 2020: comprou E-Trade por 13 bilhões e Eaton Vance por 7 bilhões.
Ripple atingiu um patamar semelhante ao do Goldman Sachs, e essas duas transações principais merecem atenção.
A primeira, a compra de Hidden Road por 1,25 bilhões de dólares. Trata-se de uma corretora de Wall Street de primeira linha, que atende fundos de hedge, gestoras de ativos e traders autônomos, com atuação em câmbio, derivativos, renda fixa e ativos digitais.
O que é uma corretora principal? Simplificando, é uma empresa que fornece “serviços de back-office” para investidores institucionais: você quer negociar, eu faço a liquidação; você quer alavancar, eu empresto; você quer custodiar ativos, eu guardo. Os negócios de prime brokerage do Goldman Sachs e Morgan Stanley são exemplos de negócios altamente lucrativos.
Após a aquisição, Hidden Road passou a se chamar Ripple Prime. Ripple entrou de vez no núcleo de Wall Street.
A segunda aquisição, por 1 bilhão de dólares, foi a GTreasury. Uma fornecedora de sistemas de gestão de caixa com 40 anos de história, com clientes como American Airlines, Goodyear e Volvo — todas Fortune 500. A GTreasury processa mais de 12,5 trilhões de dólares em pagamentos por ano.
Ao juntar essas duas transações, o mapa estratégico da Ripple fica claro.
Ela não quer mais ser apenas uma empresa de pagamentos transfronteiriços; quer construir uma “pilha de finanças institucionais de ponta a ponta”: gestão de caixa com GTreasury, prime brokerage com Ripple Prime, pagamentos internacionais com sua própria rede, usando XRP como ponte. Desde o computador do CFO até a mesa de negociação de fundos de hedge, toda a cadeia está conectada.
O CEO Brad Garlinghouse afirmou na conferência Ripple Swell: “A maior parte das nossas aquisições foca no setor financeiro tradicional, com o objetivo de levar soluções de criptografia para dentro.”
Essa frase traduz: as empresas de criptomoedas estão engolindo o setor financeiro tradicional.
A estratégia da Coinbase é diferente. Ela quer criar o “super app” do mundo cripto, uma plataforma onde tudo possa ser negociado.
Os 2,9 bilhões investidos na Deribit representam o maior investimento do ano. Deribit é a maior bolsa de opções de criptomoedas do mundo, com volume de negociação anual superior a 1 trilhão de dólares e posições que permanecem acima de 300 bilhões de dólares.
O mercado de opções é o principal campo de batalha para investidores institucionais: fundos de hedge usam opções para hedge, market makers gerenciam posições com opções, gestoras de ativos constroem produtos estruturados com opções. Conquistar a Deribit é garantir uma entrada no mercado institucional.
Além da Deribit, Coinbase adquiriu plataformas como Spindl (publicidade on-chain), Liquifi (gestão de tokens), Opyn (protocolos de opções DeFi), Vector.fun (bolsa de memes) e The Clearing Company (mercado de previsões).
Ao todo, 10 aquisições em 2025, cobrindo derivativos, DeFi, mercados de previsão e memes. O CEO Brian Armstrong quer transformar a Coinbase na “Everything Exchange”: tudo que pode ser negociado, será negociado na Coinbase.
A Kraken é mais direta: primeiro, compra licenças, depois, entra no negócio.
Por 1,5 bilhões de dólares, adquiriu a NinjaTrader, que possui licença de futuros da CFTC. Com 20 anos de história, é uma das principais plataformas de futuros de varejo nos EUA. Para oferecer negociação de futuros e derivativos legalmente, é preciso ter licença da CFTC.
Solicitar licença? Leva pelo menos três anos, e nem sempre é aprovado. Comprar uma empresa licenciada? Pronto, já funciona imediatamente. Tempo economizado, espaço conquistado, até com um prêmio de 50% sobre o valor de mercado — tudo vale a pena.
Após obter a licença, a Kraken submeteu pedido de IPO em novembro, com previsão de listagem no primeiro trimestre de 2026, avaliada em 20 bilhões de dólares. Ela deixou de ser apenas uma exchange cripto para se tornar uma plataforma de negociação multiativos licenciada.
As estratégias do Stripe
As empresas de criptomoedas estão engolindo o setor financeiro tradicional, e este, por sua vez, está infiltrando-se de volta na cripto.
O exemplo mais emblemático é a aquisição do Bridge pelo Stripe.
Em fevereiro de 2025, esse gigante de pagamentos comprou a Bridge por 1,1 bilhões de dólares: uma startup de infraestrutura de stablecoins com apenas 58 funcionários, avaliada em 200 milhões de dólares na rodada A. Stripe pagou 5,5 vezes mais, estabelecendo o maior recorde de aquisição da história da empresa.
Por que uma startup de 58 pessoas vale 1,1 bilhões?
Porque a Bridge possui algo que dinheiro e tempo dificilmente compram: é a plataforma de API mais madura no setor de stablecoins, atendendo clientes como Coinbase e SpaceX, permitindo que empresas usem stablecoins como se fosse uma API de pagamento comum. A equipe fundadora vem do Coinbase e Square, com profundo entendimento de pagamentos e criptomoedas.
Fazer por conta própria? Pelo menos dois anos. Comprar a Bridge? Pode lançar produto já no próximo mês.
O CEO do Stripe, Patrick Collison, chamou stablecoins de “supercondutores de temperatura de serviço financeiro”. Essa metáfora explica bem a essência: elas permitem que o dinheiro flua como informação, 24/7, internacionalmente, quase sem custo. Transferências tradicionais levam de 3 a 5 dias e cobram de 3% a 5% de taxa; transferências com stablecoins chegam em segundos, com taxas inferiores a um centavo.
Após a aquisição, o Stripe lançou em seis meses três produtos: contas de stablecoin para 101 países (“Stablecoin Financial Accounts”), cartão de consumo com stablecoin em parceria com Visa, e a plataforma Open Issuance, que permite a qualquer empresa emitir sua própria stablecoin.
A ambição do Stripe é clara: redefinir os pagamentos internacionais com stablecoins.
Wall Street também está se movimentando.
Em outubro, o JPMorgan anunciou que aceitará BTC e ETH como garantia, começando por fundos negociados em bolsa (ETFs), e expandindo para ativos à vista. É a primeira vez que o maior banco de Wall Street inclui ativos digitais como garantia. Segundo a Bloomberg, uma coalizão de 10 grandes bancos está explorando a emissão conjunta de uma stablecoin do G7.
A Paxos adquiriu a plataforma de carteira MPC para instituições Fordefi por mais de 1 milhão de dólares. A Fordefi atende mais de 300 instituições, com volume de transações de 120 bilhões de dólares por mês. Com essa aquisição, a Paxos oferece uma solução completa de emissão de stablecoins, tokenização de ativos e custódia DeFi.
Há cinco anos, Wall Street e o mundo cripto se olhavam com desdém. Wall Street via cripto como uma fraude e uma bolha, enquanto o setor cripto via Wall Street como antiquado e interessado em manter o status quo. Agora, estão sentados na mesma mesa, avaliando seus ativos com dinheiro de verdade.
As fronteiras estão se tornando indistintas. A definição de “empresa de criptomoedas” e “empresa financeira” está sendo reescrita.
Epílogo
Mas todos estão correndo contra o tempo.
Em 5 de junho de 2025, a Circle abriu capital na NYSE, com alta de 168% no primeiro dia e um aumento acumulado de 247% em dois dias. Foi a IPO de maior desempenho desde 1980, entre as que levantaram mais de 500 milhões de dólares. A avaliação do USDC é de 16,7 bilhões de dólares, e a captação foi de 1,1 bilhão.
Um analista de banco de investimento calculou: pelo preço de emissão, o dinheiro que a Circle “deixou na mesa” foi de 1,76 bilhões de dólares, a sétima maior falha de precificação de IPO na história. Em outras palavras, o entusiasmo pelo setor de stablecoins superou as expectativas dos underwriters.
Depois da Circle, a Bullish e a eToro também abriram capital. Em 2025, 11 empresas de criptomoedas realizaram IPOs, levantando um total de 14,6 bilhões de dólares. Em comparação, em 2024, foram apenas 4 empresas, com arrecadação de 310 milhões.
A fila de IPOs em 2026 será ainda maior. A avaliação do Kraken deve chegar a 20 bilhões de dólares, com previsão de listagem no primeiro trimestre; a BitGo já apresentou pedido de confidencialidade após quadruplicar sua receita; Gemini e Grayscale também estão na fila. O CEO da Bitwise, Hunter Horsley, prevê que essa onda de IPOs pode criar quase 1 trilhão de dólares em valor de mercado.
Mas 2026 também será ano de eleições intermediárias nos EUA.
A história é clara: o partido do presidente geralmente perde assentos no Congresso nas eleições de meio de mandato. Se o Partido Republicano perder a maioria na Câmara ou no Senado, as políticas pró-cripto podem se estreitar ou até se fechar. O presidente da SEC pode ser trocado, a legislação pode ficar paralisada, e a direção regulatória pode mudar novamente.
Isso explica por que todos estão acelerando. Fusões e aquisições precisam ser concluídas antes que a janela se feche; IPOs, precificadas antes da reversão do mercado; licenças, obtidas antes do aperto regulatório.
O prazo pode ser de apenas 18 meses.
Voltando à pergunta inicial: o que Wall Street está apostando?
Na aposta de uma era de “dupla aquisição”. Empresas de criptomoedas comprando licenças, clientes e conformidade do setor financeiro tradicional; instituições financeiras tradicionais adquirindo tecnologia, canais e inovação do setor cripto. Ambos se infiltrando mutuamente, as fronteiras desaparecendo. Em alguns anos, talvez não haja mais distinção entre “empresa de criptomoedas” e “empresa financeira”, apenas “empresa financeira”.
A onda de fusões e aquisições de 8,6 bilhões de dólares em 2025 é, na essência, uma corrida armamentista por “infraestrutura de conformidade”. Os vencedores não serão aqueles que seguem o mercado de curto prazo, mas os que antecipam, obtêm licenças e constroem capacidades de ponta a ponta.
Os investidores de varejo ainda tentam prever topo e fundo, enquanto as instituições já estão comprando toda a cadeia.